segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Quem paga para ver, assiste o que não quer ver

Quando eu era muito criança, isso há uns 20 anos, em casa nós não tínhamos muitas opções de canais para ver. O que a gente poderia fazer seria simplesmente escolher entre 4 canais; Globo, e já passava Lagoa Azul nesse tempo; SBT, adorava assistir os desenhos matinais, Carrossel e o highlander Senior Abravanel, vulgo Silvio Santos, o qual apresentava um verdadeiro endurance durante os domingos ; Manchete, canal lendário, foi justamente esse que salvou a minha infância passando desenhos como Cavaleiros do Zodíaco, Shurato, Samurai Warriors, Yu Yu Hakusho, e dentre outros; por fim a BAND, canal que não lembro se passava algo interessante (pelo menos antes de Dragon Ball), geralmente esse canal se tornava interessante durante as madrugadas saturninas de sábado.

Caso existiam outros canais, eu não sei, minha TV disponibilizava somente esses 4, e com qualidade mais ou menos só a Globo! Ou seja, assistir TV era uma porcaria, a Globo nunca prestou, só escapava a turma do Mickey no finzinho da madrugada. Com tanta porcaria eu me resumia a ler um livro, ou então fazer algo mais "útil", que era ligar meu Master System II e jogar o primeiro RPG totalmente em Português e traduzido e distribuído no Brasil por uma fábrica brasileira, que só viemos ver algo parecido atualmente com as traduções de StarCraft e World Of Warcraft, e a televisão era de somente 14 polegadas, imagina isso...

Alguns anos mais tarde tive o contato com a TV, também aberta, via satélite, através do trambolho que se pendura e equilibra em cima da residência, o qual é chamado por aí de "antena parabólica". Aquilo ali te dá opções de assistir entre uns 30 canais de produções brasileiras independentes. Algo mudou? Mudou sim, agora os 4 canais que eu tinha antes eu conseguia assisti-los em uma melhor qualidade de imagem, e de brinde eu ganhei uns 20 canais inúteis! Canal do Boi, canal do tapete, canal do leilão de jóias, enfim, canais que você realmente não precisa pagar para vê-los, até porque você não quer ver nem de graça!

Depois de vários e vários anos tive contato com a TV por assinatura. Agora eu poderia assistir "o que eu quisesse", pelo menos tudo o que eu gosto de ver passa na TV por assinatura, como exemplo, documentários sobre civilizações antigas; tecnologia; notícias do mundo; seriados e eventualmente filmes, que inclusive tenho muito pouco tempo para ver, geralmente é antes de dormir, mas, mesmo assim é algo fantástico a grade de programação da TV por assinatura com centenas de canais com produtos de qualidade que são frutos de pesquisas para saber o que você (consumidor) quer pagar para ver, mesmo com a poluição dos canais Globosat, que tem muita coisa que muita gente gosta de pagar para ver, exemplo as lutas de MMA.

O problema é que em 2007 foi criado o PLC (Projeto de Lei da Câmara) 116/10, de autoria do Dep. Federal Paulo Bornhausen, que consequentemente veio a se tornar a norma jurídica 12.485 de 12 de setembro de 2011, que dispõe sobre a comunicação audiovisual. A controversa lei confere poderes a uma agência reguladora, que irá regular e fiscalizar o conteúdo do que se passa na TV por assinatura. E ainda se não bastasse, vai empurrar na sua goela abaixo cotas de canais. Isso mesmo, cotas para canais brasileiros e parte obrigatoriamente de produção brasileira. Tudo bem que tenha cotas para negros, baixa renda, índios, muito justo, pois a sociedade e os governos têm meio que uma dívida com essas pessoas, e é em prol da educação e do bem-estar social. Mas cotas para canais em TV por assinatura? Não é algo que eu queira pagar para ver...

A lei também estabelece que a cada 4 canais estrangeiro na sua grade, 1 tem que ser 100% brasuca. Acha pouco? Você vai achar engraçado quando o Discovery ou History passar 3h30 semanais de programas de produções brasileiras independentes no horário nobre, e a Ancine é quem vai decidir o que é horário nobre e também o que vai ser transmitido. Eu sou assinante de TV por assinatura porque quis ter o direito de escolha de fugir disso, de ter que assistir desfile de bois, ou tentar se entreter com tapetes ou qualquer coisa que você não precisa pagar para ver. Agora vou pagar para ver algo que é baseado na nacionalidade e não na qualidade, simplesmente porque os legisladores e agregados veem alguma oportunidade($) nisso(!).


Caso os produtores Brasileiros precisem de mais espaço; por que não abriram uns mil canais na TV aberta? Talvez seja porque não rola dinheiro. E a fistel vai criar um fomento para fiscalização e recolhimento de 10% da contribuição das operadoras de telecomunicação. O que vai gerar uns R$300 milhões  por ano para poder gastar com besteirol brasileiro e locupletar-se com o que vier a sobrar. Políticos não dão ponto sem nó...

Enquanto isso, você tem que engolir calado. O que era simples no início, onde era só para abrir espaço para o incentivo às produções brasileiras, agora se torna em um sistema de cotas, e todo conteúdo controlado por uma agência do governo, com intenções e obrigações não muito claras, e sabe-se lá com que propósito ou baseado em que critérios essas produções irão ao ar... "para que facilitar, se podemos complicar".

 Só falta agora você ligar a TV no Nat Geo e ver a imagem de um político sorridente propalando suas ideias para quem sonhou em ter uma TV livre de manipulação e controle político, para quem sonhou fugir da chatice e tédio, falta de opções e de qualidade da TV aberta. Para você que sonhou com toda essa liberdade... prepare-se para viver o pesadelo que será a sua TV paga.


André Oliveira